Por Tales Victor Calegari

Nome: Carlos R. Etulain
Idade: 49 anos
Formação/ Universidade/ Ano: Graduação em Economia (Argentina, 1985)
Titulação: mestre em Economia (Unicamp/IE/1992) e dr. em Cs. Sociais (Unicamp/IFCH/2001)
Universidade na qual ministra aula: Unicamp/FCA
Cursos que assistem as aulas: Gestão de Empresas, Gestão de Comércio Internacional, Gestão de Agro-Negócio e Gestão de Políticas Públicas.
1. Como funciona a relação professor/aluno dentro e fora da sala de aula?
A relação professor-aluno é um componente essencial do processo de ensino-aprendizagem, pois é a partir dela que se constrói o conhecimento. O professor traz a sua experiência pessoal e a sua carga intelectual que é estrategicamente organizada para desenvolver ao longo do período letivo, entretanto, estes conteúdos não são componente exclusivo da sala de aula.
Na prática do ensino acontecem vários eventos (aula dissertativa, debates, questões, problemas para resolver, exercícios, dentre outros aspectos principais), sendo que todos eles se produzem sobre a base da chamada relação professor-aluno. Por isso, em quanto são mobilizados estes eventos se oportunizam também comportamentos, gestos e ate conflitos que estão na base do ensino. Isto é, o professor ensina através dos gestos, das falas e das suas posições dando sinais de como são os profissionais que os alunos buscam ser.
2. Acredita na relação entre professores e alunos como uma amizade linear, fora do contexto de aula?
A convivência entre professor e alunos no contexto do processo de ensino (dentro e fora da sala de aula) faz circular ações e pensamentos. É neste sentido que aluno e professor convivem, criando uma forma de existência em que se compartem as experiências e os problemas. Isto fica bem próximo do que conhecemos como “amizade”, sobretudo porque amizade indica o fato de compartir as formas de existência. Não como o gado que comparte a pasto sem sentimento de co-existência. Amizade é essa sensação de compartilhamento de falas, pensamentos e ações. Trata-se do registro da presença do “outro” como sujeito que permeia, com suas ações e pensamento, o pensamento e as ações dos demais. Amizade no plano do ensino se relaciona mais a uma dimensão política, pois implica na gestação social da identidade profissional que adquirirão os estudantes.
3. Você percebe em seus alunos a devida maturidade em sala de aula?
A maturidade não é um fato dado, ela se desenvolve através do tempo mediante a convivência própria do contexto universitário. Por tanto, a maturidade dos alunos é uma conseqüência esperada do processo de ensino. É também um processo social no sentido de ser em boa medida provocada pelas interações dos alunos e pela vida acadêmica compartilhada.
4. Qual a importância, nos dias atuais, que você dá a formação universitária?
A importância da formação universitária da perspectiva do professor representa o ponto de partida da consciência política. Neste sentido, o peso específico da universidade para a sociedade se situa muito alem do que o mercado requer, a formação universitária é, neste sentido, o resultado da participação em um espaço (a própria universidade) em que a sociedade pensa sobre si mesma.
Do ponto de vista do aluno, a busca da formação universitária representa a construção da sua identidade como pessoa e como profissional, o qual implica em incorporar conhecimentos que servem para o mundo do trabalho, mas também implica em incorporar valores e gestos que definem sua posição frente aos dilemas da sociedade atual.
5. Na época em que era universitário, tal formação apresentava o mesmo valor perante a sociedade como nos tempos atuais?
Na media em que a universidade é produto de um movimento histórico da sociedade, certamente, em cada época as ações e níveis de consciência são diferentes. As experiências e os gestos nela produzidos são também diferentes. A universidade de hoje se debate com uma realidade específica. Vemos que os jovens que chegam ao ensino superior já receberam uma carga importante de traquejo com a tecnologia. Parece-me que os jovens de hoje são compelidos a sintetizar, a obviar leituras, a se concentrar apenas nos aspectos técnicos de toda profissão. A sociedade e a mídia criaram para os jovens de hoje a ilusão de que tudo é imediato, por tanto em nada se contribuiu com isto para defrontar problemas que são mais profundos. Porem acredito que o processo de ensino pode defrontar esta realidade quebrando com suas reflexões esses preconceitos que reforçam o mundo imediatista do mercado.
6. Você considera que seus alunos estão em vantagem para adentrar ao mercado de trabalho quando comparados com outros universitários? Por quê?
Em primeiro lugar, considero que no Brasil a situação da educação superior é extremamente restrita uma vez que são minoria os jovens que tem a oportunidade de cursar a universidade. Certamente, é na universidade aonde se aprende uma profissão moderna e por isso é evidente a exclusão social vinculada ao acesso ao ensino. Para quem tem a possibilidade de estudar um curso superior abre-se a possibilidade de formação científica e cultural e isto garante um futuro bem mais promissor se comparado com a situação daqueles que desde cedo são obrigados a trabalhar e excluídos do ensino.
7. Como você avalia o mercado de trabalho atual?
É um mercado altamente competitivo. Cobra-se dos profissionais não apenas conhecimentos práticos, técnicos e o manejo dos artefatos tecnológicos. A demanda de profissionais hoje mostra interesse por uma formação mais abrangente e integral. Não basta saber utilizar instrumentos, é necessário adotar posturas que surgem da construção de uma identidade que envolve valores, atitudes, comportamentos, disposição para a ação. Isto é o que se faz na universidade.
8. Qual sua opinião a respeito dos cursos tecnológicos de graduação em tempo reduzido (2 ou 3 anos), pode-se considerá-los iguais a uma formação universitária padrão?
Não são iguais, mas nem por isso são menos necessários. Cursos mais curtos tem finalidade diferente da formação tradicional da graduação. Entretanto, acontece que ainda não houve um esclarecimento sobre o papel do tecnólogo tanto dentro da universidade como no mundo das empresas, esta é uma limitação que deve ser enfrentada hoje e que provavelmente sofrerá alterações no futuro próximo.
9. Qual o impacto, em sua opinião, da crise no mercado de trabalho?
Os períodos de crise são também períodos de transformação e por isso de renovação. Assustam porque criam incerteza. Isto é, aquela base de pensamento que estava implícita em todos nós e que nos fez, durante muito tempo, acreditar que a cada dia se daria continuidade a um mundo pautado pelas normas e hábitos do passado recente, se desintegrou. Temos que encontrar novas bases para definir nossas expectativas e nossa confiança nas instituições do mundo moderno. No que tange ao mercado de trabalho, a maioria das expectativas típicas do século XX se esvaeceram: segurança dos contratos, garantia de emprego, dentre os principais. Ao mesmo tempo vemos que grandes capitais, instalações modernas, equipamentos e recursos produtivos perderam valor com a rapidez em que se desdobrou a atual crise econômica. A tecnologia seguiu um itinerário de permanente exclusão do trabalhador. Paradoxalmente, o único valor que restou para as empresas, no meio dessa crise, é o componente humano. Por tanto, acredito ainda que é o trabalho humano que nos salvará da crise. O mercado, por seu lado, se apropria do discurso da crise para justificar os cortes de pessoal e de salário. Penso que o mercado é uma força cega e por isso brutal, mas que só encontrará saída quando a sociedade perceba a importância que há séculos tem o trabalho humano.
10. Em sua opinião, qual a “profissão do futuro”? Aposta em alguma área específica? Por quê?
Muitas profissões tradicionais ainda serão profissões do futuro. Do lado disto, surgem novas áreas de atuação profissional. A ciência também cria novas interfases do conhecimento, o qual está na base da geração de novas profissões na universidade atual. Não aposto, mas tenho certeza que a incorporação de conhecimentos com base teórica sólida e com leituras densas são peça fundamental para que uma formação profissional seja bem sucedida. Por isso, insisto em que é estratégico para o ensino universitário desmistificar a idéia - falsa e moderna - que se instalou na cabeça dos jovens através da mídia e do mercado de buscar formas de conhecimento imediatistas e fragmentadas.
11. O que diria a um pré universitário que apresenta dúvidas sobre estudar ou não na universidade onde ministra aula?
A dúvida importante não é a de estudar na universidade. A universidade deveria ser um fato inevitável na vida dos jovens. A universidade junto com o ensino da ciência traz a convivência e o compartilhamento de experiências que constroem a identidade profissional. O que deve estar sujeito a dúvida e o saber que trazemos de fora, o que se deve ter é uma posição de sujeição à crítica, pois isto contribui com a aprendizagem e a formação, por tanto, ajuda a espantar a idéias concebidas banalmente pelo mundo do mercado.
12. Você considera uma boa idéia, visto as condições de mercado atuais, um universitário se graduar em sua área seguindo sua formação?
Sim. Trabalho no ensino de economia para cursos de Gestão, de modo que considero que, nesta formação, há uma aliança entre o ensino de instrumentos necessários para tornar a gestão um ofício (uma prática), e o conhecimento científico que se alcança mediante leituras de densidade que causam considerável impacto no pensamento e na construção da identidade dos profissionais que formamos.